O futebol brasileiro já não é o mesmo. Após crises financeiras, choques de
gestão e grandes lucros surgindo assim a bonança depois das tempestades,
transformando o esporte num verdadeiro canteiro de negócios, o romantismo foi
posto em segundo plano e a tradição vem cada vez mais ficando registrada apenas
em livros, velhos artigos e registros em áudio e vídeo.
Com essa “revolução”, o atleta saiu da fossa de ir apenas “graças a Deus em busca dos três pontos”, na qual todos pareciam ter caído no período após o Tetra da Seleção Brasileira, para se tornar num ser pensante, com sentimentos e opiniões.
O atleta, cada vez mais exigido pelos
calendários preenchido de datas de jogo e pelos treinamentos físicos, cansou de
ver seu corpo esmorecer a cada segundo semestre de cada temporada em atuação.
Lesões musculares se tornaram frequentes, e os clubes pouco pareciam ligar para
isso. Os atletas que hoje pensam, então, decidiram pela criação do “Bom Senso
F. C.”, que visa melhorias para o futebol nacional. Algumas válidas, outras que
soam como interesses pessoais.
Dentre as principais questões abordadas pelo
grupo encabeçado por Alex, meio-campista hoje no Coritiba, e formado por
jogadores como Alessandro do Corinthians, Lúcio Flávio hoje no Paraná, Juan do
Internacional, Fernando Prass do Palmeiras e Edu Dracena do Santos, estão o
sempre tão polêmico abarrotado calendário, as interferências que ele causa nas
datas FIFA de seleções, causando um déficit técnico em partidas nacionais que
deveriam contar com jogadores convocados por seleções, o ‘Fair-Play
financeiro’, dentre outros.
A atitude do grupo de jogadores é louvável,
pois isso demonstra que o comodismo não está presente no futebol como
aparentava ser. Mas será que as reivindicações estão sendo feitas nos lugares
certos?
Vamos por partes. A CBF ouve as críticas dos
jogadores, mas parece não se importar muito, o que causa desconforto aos
atletas que buscam melhorias. E embora a CBF por muitos anos seja exemplo de
falta de gestão profissional, ela não tem que ouvir mesmo! Pode soar como
injusto, mas você, torcedor, quer ver uma drástica queda de partidas de seu
clube durante o ano? Aposto que não.
O fato é que quem deve ser cobrado é o clube,
e não as federações e a confederação. Se o jogador cansa por jogar demais
durante o ano, é culpa do clube não ter um elenco grande e qualificado o
suficiente para uma temporada inteira. Sendo assim é impossível uma
rotatividade do plantel, o que aliviaria os efeitos de uma temporada aos jogadores.
E se o nível das partidas cai nas datas FIFA, é culpa também é do clube de não
ter no elenco jogadores que possam suprir ausências de maneira satisfatória. E
isso vem desde a base, que não forma atletas como deveria formar no Brasil,
sendo a grande maioria fruto da ‘mágica’ que existe no nosso país de ter em seu
território jogadores com talento nato, o que cada vez mais se reduz devido aos
treinamentos cada vez mais arcaicos em solo nacional.
Seria também desinteressante uma queda no
número de partidas a cada temporada, e isso afetaria principalmente o torcedor.
E isso não é só pela redução do entretenimento anual conquistado ao ver seu
clube na TV ou no estádio. O prejuízo no bolso de quem vai ao estádio e quem
compra pacotes PPV na TV seria também maior. Menos partidas ocasionariam
aumento no valor dos ingressos, pois o clube não abriria mão deste lucro. As
TV’s provavelmente também não reduziriam o valor dos pacotes, pois ela também
possui suas dívidas em relação a direitos de imagem. E isso prejudicaria a
todos os fãs do esporte.
E quanto ao Fair-Play financeiro? Culpa das
federações, ou dos clubes? O mais provável é que seja culpa dos próprios
jogadores, em grande parte. Para o clube não ter dívidas, ele precisa,
sobretudo, manter um controle em sua folha salarial, o que não acontece
justamente por conta dos altíssimos salários pagos aos jogadores e comissão
técnica nos dias de hoje. Muitos dos jogadores que reivindicam melhorias
possuem salários astronômicos, e jamais aceitariam uma redução de seus vencimentos.
Como o salário é alto, o clube se afunda em dívidas para pagar, atrasando
muitas vezes as parcelas. E o processo acaba se transformando num círculo
vicioso, onde o clube não consegue suprir sua demanda financeira,
sacrificando-se para pagar os salários. É óbvio que os clubes têm a sua parcela
de culpa nisso, mas hoje, um clube que se planeja a pagar no máximo (um
exemplo) R$ 100 mil por mês aos seus jogadores, numa Série A do Brasileiro no
mínimo brigaria para não cair, pois não conseguiria ter em seu plantel grandes
jogadores para brigar na parte de cima da tabela. Mas sempre existem exceções à
regra... E a deste ano chama-se Clube Atlético Paranaense.
O Furacão é um dos maiores exemplos de gestão
de nosso país, atualmente. Embora não seja um dos clubes com maior receita no
Brasil, tampouco paga os salários mais altos (é apenas o 16º colocado segundo a
revista Exame), e tenha frequentado nos últimos anos a Série B nacional, neste
período o clube se estabilizou financeiramente gastando pouco (cerca de R$ 7
milhões para montagem do elenco anualmente, contra mais de R$ 60 milhões do
Corinthians, o que mais gasta), e ainda conseguindo investir em estrutura (a
Arena da Baixada será um dos estádios mais modernos do mundo e sede da Copa de
2014). Além disso, o clube que sempre foi um dos poucos a investir de maneira
correta nas categorias de base no Brasil, se preocupando em formar atletas e
não em apenas ganhar títulos, colhe frutos disso durante toda a temporada de
2013.
No início do ano ainda sob o comando do
técnico Ricardo Drubsky, o clube utilizou em sua maioria apenas meninos criados
na base durante todo campeonato estadual do Paraná. O clube começou se
adaptando, cresceu durante o campeonato e atingiu o vice-campeonato gastando
pouco. Enquanto isso, seus principais atletas trabalhavam numa longuíssima
pré-temporada visando às disputas que viriam no restante do ano. O clube
começou num ritmo lento a competição, agora sob o comando de Wagner Mancini, foi
crescendo a cada jogo, e no momento certo se estabeleceu como uma das maiores
forças do país, alcançando a final da Copa do Brasil, e simultaneamente
pleiteando um lugar na Libertadores de 2014 por meio do Campeonato Brasileiro.
Pode-se afirmar que tudo isso se deve ao
planejamento e ao elenco que apesar de estar longe de ser tarimbado, possui
opções boas para todos os setores em número significativo, muitos deles
formados na própria base do clube. Seus jogadores mais experientes, Luis
Alberto (35 anos) e Paulo Baier (39 anos), considerados bases do time, como
fizeram uma pré-temporada longa e adequada, e descansaram quando preciso
durante a temporada, estão em plena forma física na reta final das competições
nacionais, diferentemente de Seedorf do Botafogo e Alex do Coritiba, que já
mostram sinais de cansaço no mesmo período, por conta de terem sido
exaustivamente utilizados durante toda a temporada, pois seus clubes não
possuírem material humano para um rodízio.
O “Bom Senso” é importante, pois o futebol
está longe do ideal nos dias de hoje, mas a cobrança tem que ser sobre quem faz
o futebol perdurar durante anos como paixão nacional: Os clubes. São eles que
promovem o primeiro interesse ao futebol, e são eles que devem ser modelos de
gestão. Se o clube se preocupar com seu material humano de forma que haja um
planejamento melhor para todos, não há calendário que tenha que ser modificado,
pois isso sempre será desinteressante ao principal cliente do esporte, que é
justamente o torcedor.
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