É notório que algumas figuras desportivas entram na história por
detalhes, seja para o bem ou para o mal. Quem não se lembra de Gabrielle
Andersen-Scheiss, fundista suíça que mesmo com fortes cãibras se
esforçou e completou a maratona feminina das Olimpíadas de Los Angeles,
tornando sua imagem num exemplo de esportividade e espírito olímpico? E
quem não se comoveu com Eric Moussambani, nadador que quase se afogou
nadando sozinho numa preliminar das Olimpíadas de Sidney? Entre outros
exemplos, vou citar hoje um goleiro romeno que faz parte da história do
futebol europeu e de seu país. Trata-se de Helmuth Duckadam, que parece
ser um homem predestinado e nascido para entrar na história como herói
de um time. Só para aquilo, e nada mais. Mas vamos por partes. Devemos
contar parte de tudo o que aconteceu antes de seus feitos.
Helmuth Duckadam nasceu em 1959, na cidade de Semlad na Romênia. Jogou
na sua juventude por pequenos times da região de Arad, onde se localiza
seu lugar de nascimento. Sua profissionalização aconteceu no ano de 1977
pelo modesto Constructorul Arad. Logo em 1978, o jovem goleiro se
transferiu a outro time de Arad, agora mais expressivo, o UTA Arad,
quarto maior campeão Romeno da história, apesar de viver um momento ruim
de sua história atualmente.
No UTA atuou durante quatro temporadas, até se transferir ao poderoso
Steaua Bucureşti, maior campeão romeno da história. Além de 1982 ter
sido o ano de sua transferência ao Steaua, foi também o ano onde ele
teve suas duas convocações a seleção romena de futebol, ainda jogando
pelo UTA.
Pelo Steaua, teve atuações memoráveis. Por lá, foi bi-campeão romeno e
campeão da Copa da Romênia. Mas o melhor ainda estava por vir...
Na temporada 1985/86 européia, o Steaua teve o direito de participar da
UEFA Champions League, maior torneio de clubes europeu. Naquela época
ainda não existia a fase de grupos, e 31 times se enfrentaram no sistema
de 'mata-mata' pela taça (Quem se questiona com facilidade deve
perceber: "Como 31 times jogaram num mata-mata?". Aproveitando a
oporunidade, vale uma breve explicação para entender o contexto das
semis da competição: Tudo isso se deve a tragédia ocorrida na final da
edição 84/85 da UCL, conhecida como tragédia de Heysel. Liverpool e
Juventus se enfrentariam no estádio belga pela taça, mas os hooligans
ingleses e os ultras italianos entraram em confronto e destruíram o
recinto, o que resultou em 38 mortos e milhares de feridos. Como punição
aos hooligans que foram dados como responsáveis, se excluiu durante
anos os times ingleses da maior competição européia de clubes, e o
Everton que seria dono da vaga inglesa de 85/86 foi posto de fora, dando
vaga direta as oitavas-de-final ao Anderlecht da Bélgica.).
O Steaua começou bem na competição. Na primeira ronda viajou à Dinamarca
e arrancou um empate em 1 a 1 com o Vejle. No jogo de volta, liquidou
com facilidade os dinamarqueses por 4 a 1.
Na segunda ronda enfrentou o Honvéd, tradicional time húngaro que tinha
na primeira fase eliminado o Shamrock Rovers da Irlanda. O Honvéd não
era mais o mesmo dos tempos de ouro da Copa Mitropa, e foi eliminado
pelos romenos. Apesar do primeiro jogo ter terminado em 1 tento a zero
para os húngaros, o Steaua repetiu a goleada de 4 a 1 da primeira fase, e
no agregado estava classificado por 4 a 2 às quartas-de-final.
Nas quartas, a classificação foi mais apertada. O Steaua enfrentou uma
das surpresas do campeonato, o Kuusysi da Finlândia (Que em 1996 foi
refundado com o nome de FC Lahti, após uma fusão com o rival Reipas
Lahti, ambas da cidade de Lahti). No primeiro jogo as duas equipes
passaram em branco, e um 0 a 0 obrigava aos romenos vencer o próximo
jogo. E foi o que aconteceu: Apesar das dificuldades, 1 a 0 para os
romenos e classificação para as semis.
Nas semis, o Steaua enfrentou o Anderlecht que tinha eliminado apenas
dois times da competição, pelo fato de ter sido beneficiado com a
eliminação precoce do Everton. Nas oitavas os belgas tinham eliminado o
Omonia do Chipre, e nas quartas o poderoso Bayern Munich num agregado de
3 a 2. O Steaua teve problemas no jogo em Bruxelas perdendo por 1 a 0.
Porém no jogo de volta não teve trabalho para aplicar um 3 a 0 e se
classificar às finais.
Duckadam, goleiro.
Foi então nas finais que a estrela de Helmuth Duckadam brilhou. A final
seria disputada em Sevilla. O adversário era o Barcelona, que jogaria
quase em casa, dificultando a vida dos romenos. Os culés chegaram às
finais vencendo na primeira ronda os tchecos do Sparta Praga por gols
fora de casa. Nas oitavas bateu o Porto pelos mesmos critérios de
desempate. Teve seu grande desafio nas quartas, vencendo a atual campeã
da competição Juventus. Nas semis, enfrentou o Gothenburg da Suécia.
Perdeu o primeiro jogo por 3 a 0. Na volta, ganhou por 3 a 0 e levou a
decisão aos pênaltis. Venceu, e se classificou às finais.
A bola então entrou em jogo naquele 7 de maio de 1986 no estádio Ramón
Sanchez Pizjuán, em Sevilla. Foi um jogo tenso e brigado, terminando em 0
a 0 no tempo regulamentar e nas prorrogações. A decisão seria por
grandes penalidades. E Duckadam entrou para a história desportiva
justamente nela.
Na verdade, qualquer um dos dois goleiros poderia ter sido eternizado
até a terceira rodada de penalidades. O Steaua começou batendo com o
Mikal Majaru, o Barça bateu com o capitão Alexanko, o Steaua bateu sua
segunda com László Bölöni e o Barcelona completou batendo com Ángel
Pedraza. Nenhum dos pênaltis foi para fora. Porém, nenhum entrou.
Duckadam pelo Steaua e Urruticoechea pelo Barcelona defenderam as quatro
cobranças. A partir deste ponto as coisas mudaram. O Steaua inaugurou o
placar enfim, com um potente chute de Marius Lăcătuş (Que teve algumas
passagens pelo Steaua nos últimos anos como técnico). E o Barça
continuou parando nas mãos de Duckadam. O goleiro romeno parou a
cobrança de Pichi Alonso. O Steaua ampliou com Gavril Balint. Bastava
mais uma defesa de Duckadam para o inédito título aos romenos e a todo
leste europeu. Até hoje, graças ao quarto pênalti defendido por Duckadam
na cobrança de Marcos, o Steaua é o único time do leste europeu a ter
erguido a maior taça européia de clubes. Em suas três primeiras defesas,
pulou para o mesmo lado e defendeu as cobranças. Marcos talvez tenha
pensado, "Batendo do outro lado nosso time continua no páreo". Ledo
engano. Se foi sorte, foi em excesso para Helmuth. Na última cobrança
ele pulou para o outro lado também e defendeu a penalidade, se tornando
campeão da Europa.
Lamentavelmente, Duckadam sofreu uma trombose após pouco tempo da
histórica atuação em Sevilla, aos 27 anos. Com justiça, se tornou para
muitos o "Herói de Sevilla". Teve que deixar as metas romenas para
tratar de sua doença. Aquela histórica partida foi a última de Helmuth
com as cores do Steaua. Predestinação das grandes.
Após alguns anos, recuperado, ainda jogou pelo Vagonul de Arad, sua terra natal.
Duckadam, presidente.
Hoje em dia, Helmuth Duckadam é um dos maiores ídolos da história do
Steaua. Foi condecorado em 2008 pelo então presidente da Romênia Traian Basescu com o Ordinul "Meritul Sportiv",
a "Ordem do mérito esportivo". É tão ídolo que hoje é presidente do
clube de Bucareste, nomeado pelo proprietário do clube George Becali,
desde agosto de 2010. Permanece com seu tradicional bigode e é
frequentemente visto com seu cachimbo, se tornando um personagem
marcante na classe futebolística européia.
Para finalizar, o registro das penalidades daquela partida: